Por Roberto Nogueira
Confesso que muitas vezes tenho dificuldade para compreender o comportamento político do eleitor baiano.
O mesmo grupo político governa a Bahia desde 2007. São quase duas décadas de continuidade administrativa. Naturalmente, durante todo esse período houve realizações, investimentos e avanços que precisam ser reconhecidos. Mas também existem problemas históricos que continuam fazendo parte da vida de milhões de baianos.
Na segurança pública, por exemplo, os números ainda são extremamente preocupantes. Segundo o Atlas da Violência 2026, com dados referentes a 2024, a Bahia registrou taxa de 40,9 homicídios por 100 mil habitantes, a segunda maior do país.
É verdade que houve melhora posteriormente. Dados da própria Secretaria de Segurança Pública apontam redução de 13,1% nas mortes violentas em 2025, quarto ano consecutivo de queda.
Reconhecer essa melhora é necessário. Mas também é legítimo perguntar: depois de quase 20 anos de um mesmo grupo político administrando o estado, o patamar atual pode ser considerado satisfatório?
Em um indicador mais amplo de qualidade de vida, o Índice de Progresso Social Brasil 2026 colocou a Bahia na 22ª posição entre as 27 unidades da Federação, com 58,72 pontos.
Na educação, também é preciso reconhecer avanços recentes. O Ideb da Bahia melhorou entre 2023 e 2025 nos anos iniciais e finais do ensino fundamental e também no ensino médio. Portanto, seria injusto afirmar que nada melhorou.
A questão é outra:
os avanços obtidos são compatíveis com quase duas décadas de permanência do mesmo grupo no comando do estado?
Essa é uma pergunta que cada eleitor deveria fazer sem paixão partidária.
A eleição de 2026 mostra sinais de mudança no comportamento do eleitorado.
Em 2022, Lula recebeu impressionantes 72,12% dos votos válidos na Bahia no segundo turno presidencial.
Hoje, uma pesquisa AtlasIntel/A Tarde realizada entre o fim de agosto e o início de setembro mostra Lula com 58,1% em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro.
Lula continua tendo uma enorme vantagem no estado, portanto seria precipitado falar em rompimento político da Bahia com o campo petista.
Mas a diferença entre os números chama atenção e indica que aquele domínio eleitoral esmagador de quatro anos atrás pode já não possuir a mesma intensidade.
No governo estadual ocorre algo semelhante.
Pesquisa Real Time Big Data divulgada em setembro colocou Jerônimo Rodrigues com 45% e ACM Neto com 44%, caracterizando empate técnico.
Outro levantamento, da AtlasIntel, chegou a mostrar ACM Neto numericamente à frente, também dentro da margem de erro.
Ou seja: uma eleição que há alguns anos poderia parecer previsível hoje está completamente aberta.
Isso talvez seja o sinal político mais importante.
Não porque o eleitor baiano tenha obrigação de votar na oposição.
E muito menos porque trocar um partido por outro represente automaticamente solução para os problemas do estado.
O que deveria existir é cobrança.
Quem governa há quase 20 anos precisa explicar à sociedade por que problemas tão graves continuam presentes.
A oposição, por sua vez, precisa apresentar propostas concretas e demonstrar por que seria capaz de fazer diferente.
O eleitor não deveria votar simplesmente por tradição, paixão partidária, gratidão política ou rejeição ao adversário.
Deveria perguntar:
Minha cidade melhorou?
Minha família está mais segura?
A saúde pública atende melhor?
A educação prepara nossos jovens para o futuro?
As oportunidades aumentaram?
Depois de tantos anos, a Bahia avançou o quanto poderia ter avançado?
Talvez a mudança mais importante não seja simplesmente trocar um governador.
Talvez seja mudar a forma como escolhemos nossos governantes.
Governos não deveriam receber cheque em branco.
Quem governa bem merece reconhecimento.
Quem não apresenta resultados suficientes precisa ser cobrado — independentemente do partido.
A Bahia não precisa de torcida política.
Precisa de resultado.
E talvez a eleição de 2026 esteja mostrando que uma parcela cada vez maior dos baianos começou justamente a fazer aquilo que toda democracia saudável exige:
comparar, questionar e cobrar.
Roberto Nogueira
