A força usada para conquistar votos deveria ser a mesma usada para cuidar do povo
Cara a Cara com Roberto Nogueira
Estamos novamente em um período eleitoral, quando candidatos a presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual começam a ocupar as ruas, participar de reuniões, tirar fotografias, apresentar propostas e prometer aquilo que pretendem fazer caso sejam eleitos ou reeleitos.
É justamente nesse momento que chama atenção a enorme capacidade de mobilização das campanhas. São carros adesivados, bandeiras, santinhos, comitês, equipes, lideranças políticas, reuniões e carreatas que, muitas vezes, parecem mais uma disputa para demonstrar força do que um verdadeiro debate sobre os problemas da população.
Diante de toda essa estrutura, uma pergunta precisa ser feita: por que existe tanta capacidade de organização para conquistar votos e, muitas vezes, tão pouca eficiência para resolver os problemas básicos da população durante os quatro anos de mandato?
Quando chega a eleição, surgem carros, pessoas, equipes, recursos e lideranças trabalhando intensamente pela vitória de determinado candidato. Mas, durante o mandato, muitas cidades continuam convivendo com ruas esburacadas, praças abandonadas, iluminação deficiente, escolas necessitando de melhorias, falta de segurança e pessoas sofrendo em filas de hospitais.
Se existe tanta capacidade para mobilizar centenas de pessoas em uma campanha, por que essa mesma força não é utilizada para melhorar a cidade?
Imagine se a disposição usada para organizar uma carreata fosse aplicada em um grande mutirão para recuperar ruas, praças e espaços públicos. Imagine se a mesma preocupação em procurar o eleitor durante alguns meses existisse durante os quatro anos seguintes para ouvir suas necessidades.
O trabalho realizado deveria ser a maior campanha de qualquer político.
Uma cidade limpa deveria ser propaganda. Uma escola funcionando bem deveria ser propaganda. Um hospital atendendo com dignidade deveria ser propaganda. Uma praça iluminada, uma estrada conservada e uma população mais segura deveriam falar muito mais alto do que qualquer carro adesivado.
Quem administra bem não deveria depender apenas de grandes promessas quando chega a eleição. O resultado do seu trabalho deveria falar por ele.
Também é necessário que o eleitor observe com atenção a relação entre política, poder econômico e estrutura eleitoral. Campanhas possuem formas legais de financiamento e precisam prestar contas, mas o cidadão tem todo o direito de perguntar quanto custa determinada estrutura, quem está pagando cada despesa e se tudo aquilo está sendo realizado dentro da legalidade.
É preciso questionar também qualquer tentativa de utilizar vantagens, empregos, benefícios ou estruturas públicas para influenciar escolhas eleitorais. Compra de votos, abuso de poder ou uso irregular da máquina pública não podem ser tratados como parte normal da política.
Essas perguntas não pertencem à direita nem à esquerda. Pertencem ao cidadão.
O problema é que, muitas vezes, o eleitor acaba sendo levado a medir a força de um candidato pelo tamanho da carreata, pela quantidade de carros, bandeiras, lideranças ou pessoas presentes em um evento.
Mas precisamos entender algo muito simples:
Bandeira não melhora hospital. Santinho não educa criança. Carreata não tapa buraco. Adesivo não gera segurança. E promessa não substitui resultado.
Também precisamos separar política de politicagem.
A política é necessária e fundamental para qualquer sociedade. É por meio dela que se administra, planeja, define prioridades e busca soluções para melhorar a vida das pessoas.
Politicagem é outra coisa. É quando alguém transforma a política em instrumento de benefício próprio, manutenção de poder ou favorecimento de determinados grupos.
E quando isso acontece, quem continua pagando a conta é o povo.
É o trabalhador que paga impostos, a mãe que espera atendimento para o filho, o comerciante que luta para manter seu negócio funcionando, o motorista que enfrenta os buracos e toda uma população que espera dos seus representantes compromisso com o bem comum.
Talvez, nesta eleição, seja necessário observar menos o tamanho das carreatas e mais o tamanho dos resultados.
Menos bandeiras e mais trabalho.
Menos discursos e mais prestação de contas.
Menos promessas sobre aquilo que será feito amanhã e mais explicações sobre aquilo que poderia ter sido feito durante os anos de mandato.
Antes de escolher um candidato pela força demonstrada durante uma campanha, o eleitor deveria perguntar: o que ele fez quando teve oportunidade de trabalhar pelo povo?
Porque a democracia não deveria ser uma competição para saber quem consegue fazer a campanha mais bonita, mais cara ou mais movimentada.
Deveria ser uma escolha entre pessoas capazes de demonstrar competência, responsabilidade, transparência e compromisso com aquilo que pertence a todos nós.
Talvez o problema não esteja somente nos políticos. Talvez esteja também naquilo que nós, eleitores, aprendemos a aceitar como normal.
O voto dura poucos segundos. As consequências podem durar quatro anos.
