Cara a Cara com Roberto Nogueira
O Brasil vive um momento que deveria provocar uma profunda reflexão. Talvez a discussão já não seja apenas entre esquerda e direita. Em muitos momentos, a verdadeira divisão parece estar entre aquilo que consideramos certo e errado; entre quem respeita o dinheiro público e quem enxerga o Estado como instrumento de poder; entre quem pretende construir sua vida por meio do trabalho e quem procura privilégios, vantagens ou caminhos mais fáceis para alcançar seus objetivos.
Não se trata de atacar quem necessita de assistência do Estado. Uma sociedade justa precisa proteger aqueles que realmente precisam. O problema começa quando a política deixa de ser instrumento de transformação social e passa a utilizar a necessidade das pessoas como mecanismo de dependência eleitoral. Pobreza não pode ser moeda política, e necessidade não pode virar instrumento para manter grupos indefinidamente no poder.
O mesmo questionamento precisa alcançar nossas instituições.
O Supremo Tribunal Federal exerce uma das funções mais importantes da República: a Constituição determina que cabe ao STF, principalmente, a guarda da própria Constituição. Justamente por possuir tamanho poder, seus integrantes precisam conviver com fiscalização, cobrança, críticas e questionamentos da sociedade.
Quando decisões ou comportamentos de autoridades produzem em parcela da população a percepção de que existem dois pesos e duas medidas, a instituição precisa responder com transparência e fundamentação, e não simplesmente tratar toda crítica como ataque.
Nenhum ministro, juiz, político, jornalista ou autoridade pública pode se considerar acima do bem e do mal.
Na minha avaliação, um dos grandes problemas do Brasil atual é justamente a perda de confiança nas instituições. Quando pessoas começam a acreditar que determinadas autoridades possuem lado político, protegem alguns e perseguem outros, temos um problema institucional sério. Isso não significa que toda acusação feita contra uma autoridade seja verdadeira. Significa que qualquer denúncia concreta de abuso, pressão indevida, ameaça ou utilização irregular do cargo precisa ser investigada com provas, direito de defesa e transparência.
O poder não pode servir para intimidar quem pensa diferente.
Não podemos aceitar uma República em que alguém se apresente como defensor absoluto da moralidade enquanto suas próprias atitudes estejam acima de qualquer questionamento. Quanto maior o poder, maior precisa ser a responsabilidade.
A imprensa também possui enorme responsabilidade nesse processo.
A Constituição protege expressamente a liberdade de informação jornalística e proíbe a censura de natureza política, ideológica e artística. Essa liberdade, entretanto, carrega uma responsabilidade igualmente grande: informar com seriedade, separar notícia de opinião e não transformar interesses econômicos ou políticos em notícia apresentada como verdade absoluta.
Quando um profissional utiliza sua capacidade intelectual apenas para favorecer interesses, esconder fatos importantes, distorcer acontecimentos ou atacar adversários de terceiros, o jornalismo perde aquilo que possui de mais precioso: a confiança do leitor.
Veículos de comunicação precisam de recursos para sobreviver. Isso é evidente. Empresas possuem custos, funcionários e compromissos. Mas existe uma grande diferença entre receber publicidade e permitir que interesses financeiros determinem aquilo que será apresentado como verdade ao público.
Dinheiro é necessário. Dignidade também.
Nenhum profissional deveria jogar fora sua credibilidade apenas porque alguém está disposto a pagar por determinada narrativa.
Da mesma maneira, precisamos observar a quantidade de recursos movimentados durante uma eleição. Para as eleições gerais de 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha possui R$ 4.961.519.777 em recursos públicos destinados ao financiamento eleitoral. O TSE também disponibiliza informações sobre arrecadação e gastos das candidaturas, inclusive por meio das prestações de contas apresentadas durante a campanha.
O financiamento previsto em lei não significa, evidentemente, corrupção. Mas diante de cifras dessa dimensão, a sociedade tem todo o direito de perguntar: como esse dinheiro está sendo utilizado? Quem está financiando determinada campanha? Quanto está sendo gasto? Existe abuso do poder econômico? Existe compra de votos? Existe utilização indevida da estrutura pública?
O próprio Tribunal Superior Eleitoral reconhece como ilícitos práticas como abuso de poder, fraude, compra de votos, utilização irregular de recursos e oferecimento de vantagens ao eleitorado. Portanto, fiscalizar eleições não é atacar a democracia. Fiscalizar eleições é defender a democracia.
O que não podemos normalizar é a transformação da política em uma corrida permanente pelo poder.
Em muitos municípios brasileiros, vemos durante anos problemas de infraestrutura, saúde, educação, segurança, limpeza urbana e tantos outros serviços básicos. Curiosamente, quando as eleições se aproximam, aparecem obras, serviços, benefícios, promessas e uma atenção que muitas comunidades passaram anos esperando.
Isso precisa mudar.
O cidadão não pode ser lembrado apenas quando seu voto passa a interessar.
A população também precisa assumir sua parcela de responsabilidade. Não podemos reclamar durante quatro anos e, na eleição seguinte, trocar nossa consciência por pequenos favores, vantagens ou promessas.
Quando fazemos isso, ajudamos a construir o próprio problema que depois iremos enfrentar.
Política é algo necessário e importante. Em sua essência, política deveria representar a arte de administrar o interesse coletivo, buscar soluções e melhorar a vida das pessoas.
O problema não é a política.
O problema é quando alguém entra na vida pública enxergando o mandato como oportunidade de enriquecimento, influência ou benefício pessoal. Quem ocupa cargo público precisa compreender que está administrando aquilo que pertence à sociedade.
Não podemos afirmar que todo político que aumenta seu patrimônio cometeu crime. Patrimônio, renda e origem dos recursos precisam ser analisados objetivamente. Mas qualquer enriquecimento incompatível com os rendimentos declarados ou sustentado por recursos ilícitos deve ser investigado com absoluta seriedade.
Talvez este seja um dos maiores desafios do Brasil: voltarmos a entender que caráter não pode depender de partido, ideologia ou conveniência.
Errado precisa continuar sendo errado, independentemente de quem praticou.
Corrupção não pode ser condenada quando vem do adversário e relativizada quando beneficia aquele de quem gostamos.
Abuso de poder não pode ser aceitável apenas porque é praticado contra alguém de quem discordamos.
Mentira não pode virar verdade simplesmente porque foi repetida milhares de vezes.
Precisamos pensar no país que estamos deixando para nossos filhos, nossos netos e para as futuras gerações.
Até onde iremos permitir que pessoas honestas sejam tratadas como inimigas enquanto aqueles que sabem manipular o sistema se apresentam como heróis?
Que Brasil queremos construir?
Um país de cidadãos livres ou uma sociedade permanentemente dividida e utilizada como massa de manobra?
Não precisamos concordar em tudo. Democracia pressupõe divergência. Esquerda e direita continuarão existindo, assim como diferentes visões sobre economia, costumes e políticas públicas.
Mas acima dessas diferenças precisa existir algo maior: respeito às leis, responsabilidade com o dinheiro público, liberdade, justiça, dignidade e compromisso com a verdade.
Porque quando perdemos esses valores, pouco importa quem está no poder.
Quem perde é o Brasil.
E que Deus tenha misericórdia daqueles que receberam poder para servir ao próximo, mas escolheram utilizá-lo para servir a si mesmos.
