Cara a Cara com Roberto Nogueira
Passadas as eleições, chegou a hora de olhar para além das promessas e dos benefícios anunciados durante a campanha e fazer uma pergunta simples:
quem vai pagar essa conta?
Nos meses que antecederam as eleições, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou uma série de medidas envolvendo aumento de benefícios sociais, redução de impostos, renegociação e perdão de dívidas, novas linhas de crédito e outros programas.
Ajudar quem precisa não é o problema. Um país com milhões de famílias em situação de vulnerabilidade precisa de políticas sociais.
O meu questionamento é outro: por que tantas medidas foram anunciadas justamente às vésperas das eleições e qual será a capacidade do Estado de sustentá-las depois das urnas?
Um dos exemplos foi o reajuste de 15,04% do Bolsa Família, anunciado em setembro, elevando o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691. Segundo o governo, tratou-se de uma recomposição da inflação acumulada.
Individualmente, cada medida pode possuir uma justificativa. Mas, quando analisamos o conjunto e principalmente o momento em que foram anunciadas, considero legítimo perguntar se existiu também uma estratégia eleitoral.
Segundo levantamento da Instituição Fiscal Independente, o conjunto de medidas anunciado em 2026 mobilizava aproximadamente R$ 298,4 bilhões, considerando despesas, renúncias tributárias e operações de crédito.
Isso não significa que R$ 298 bilhões simplesmente tenham saído do caixa do governo. Parte desse valor corresponde a operações financeiras. Mesmo assim, demonstra a dimensão das decisões tomadas em pleno ano eleitoral.
Na minha avaliação política, esse comportamento lembra aquilo que muitos chamam de “estelionato eleitoral”: uma sequência de benefícios e promessas apresentada durante a campanha, enquanto parte importante da conta, do financiamento e da execução ficará para depois das eleições.
Não estou afirmando que houve crime eleitoral. Cabe à Justiça Eleitoral analisar juridicamente cada medida. Minha discussão é política e econômica.
E os números das contas públicas merecem atenção.
A dívida bruta do governo chegou, segundo os dados citados nesta análise, a aproximadamente 82,9% do PIB, cerca de R$ 11,1 trilhões.
Nos doze meses encerrados em agosto, o setor público acumulou aproximadamente R$ 1,182 trilhão em juros nominais.
Ou seja: não estamos falando de um país com dinheiro sobrando.
Por isso, quando o governo cria uma nova despesa, amplia um benefício ou abre mão de arrecadação, precisa explicar claramente de onde virá o dinheiro.
Benefício não nasce em árvore. Renúncia fiscal também tem custo.
E alguns sinais dessa conta já começam a aparecer no planejamento para 2027.
Estimativas apontam para necessidade de remanejamentos no Orçamento para acomodar parte das medidas anunciadas durante a campanha. Ao mesmo tempo, existe uma diferença importante entre as projeções oficiais e as avaliações independentes sobre o resultado das contas públicas.
Enquanto o governo projeta melhora do resultado fiscal, a Instituição Fiscal Independente trabalha com um cenário mais preocupante, incluindo déficit e crescimento da dívida.
Isso deveria preocupar brasileiros de esquerda, direita ou centro.
Uma dívida cada vez maior significa mais recursos destinados ao pagamento de juros e menos espaço para investimentos em áreas fundamentais como saúde, segurança, educação e infraestrutura.
É importante também deixar claro: o problema não é o pobre nem quem recebe o benefício.
Uma mãe que precisa do Bolsa Família não é responsável pela dívida pública.
O trabalhador que necessita de ajuda também não.
O pequeno empreendedor que procura crédito não criou o problema fiscal brasileiro.
Minha crítica é ao modelo político.
Política social precisa ajudar as pessoas a superar a pobreza, criar oportunidades, emprego e renda, permitindo que, no futuro, dependam cada vez menos do Estado.
Ela não pode se transformar em uma ferramenta de dependência ou ganhar velocidade somente quando as eleições se aproximam.
Um governo responsável precisa fazer duas coisas ao mesmo tempo: ajudar quem precisa e cuidar das contas públicas.
Não existe política social sustentável sem responsabilidade fiscal.
É fácil anunciar um benefício.
Difícil é garantir seu pagamento durante anos.
É fácil reduzir impostos.
Difícil é explicar como compensar a receita que deixou de entrar.
É fácil anunciar bilhões durante uma campanha.
Difícil é fechar o orçamento depois que as urnas são guardadas.
Agora a eleição terminou.
Chegou a hora de colocar as promessas ao lado da calculadora.
Quanto custará cada medida?
De onde sairá o dinheiro?
Quanto precisará ser remanejado?
Quanto poderá aumentar a dívida?
E o governo terá coragem de reduzir despesas para equilibrar aquilo que prometeu?
Não podemos afirmar que faltará dinheiro para pagar todos os benefícios.
Mas podemos e devemos perguntar se esse caminho é sustentável.
Porque um país não consegue gastar continuamente mais do que arrecada, aumentar sua dívida e imaginar que a conta nunca chegará.
Ela chega.
E normalmente quem sente primeiro não é o político.
É o cidadão que paga impostos, precisa do hospital público, espera uma escola melhor, necessita de segurança e depende dos serviços oferecidos pelo Estado.
Por isso, o grande debate depois das eleições não deveria ser apenas sobre quem ganhou ou perdeu.
Deveria ser também:
quem pagará a conta das promessas feitas antes das urnas?
Benefício social é necessário.
Responsabilidade fiscal também.
Porque promessa pode ajudar a ganhar uma eleição. Mas somente responsabilidade consegue sustentar um país.
