Cara a Cara com Roberto Nogueira
Enquanto a Prefeitura de Eunápolis investe na realização de um dos maiores festejos juninos da região, com estrutura grandiosa e artistas de projeção nacional, parte da população continua enfrentando problemas antigos de infraestrutura que deveriam receber a mesma atenção dispensada aos grandes eventos.
O Pedrão movimenta a economia, fortalece o comércio, gera empregos temporários e valoriza a cultura popular. Isso é importante e deve ser reconhecido. No entanto, nenhuma festa, por maior que seja, pode servir para esconder problemas estruturais que afetam diariamente a vida da população.
Eunápolis ainda enfrenta desafios históricos relacionados à limpeza e manutenção de bueiros, construção de canais para drenagem das águas pluviais, ampliação da rede de esgoto, fiscalização de construções em áreas de risco e manutenção da infraestrutura urbana.
Outro problema que merece atenção é a falta de planejamento permanente para a poda preventiva de árvores. Em muitos municípios, esse serviço acaba sendo tratado como secundário, quando, na verdade, representa uma importante ação de prevenção. Durante períodos de chuvas e ventos fortes, galhos e árvores sem manutenção adequada podem cair sobre residências, veículos, vias públicas e redes de energia elétrica, provocando acidentes, interrupção no fornecimento de energia e colocando vidas em risco.
A poda preventiva não é apenas uma questão de paisagismo ou estética urbana. É uma medida de segurança pública que protege famílias, evita prejuízos e reduz riscos de tragédias. Esperar que uma árvore caia para somente depois agir não é prevenção; é apenas administrar as consequências de um problema que poderia ter sido evitado.
Infelizmente, muitos gestores preferem investir em obras e ações que aparecem nas fotografias e nas redes sociais, enquanto serviços essenciais de manutenção, como limpeza de bueiros, drenagem, poda de árvores, conservação de encostas e prevenção de alagamentos, acabam ficando em segundo plano. O problema é que essas ações, embora menos visíveis para o eleitor, são justamente as que protegem vidas.
Asfalto novo e maquiagem urbana podem melhorar momentaneamente a aparência da cidade, mas não substituem obras estruturantes. Pavimentar ruas sem antes implantar rede de esgoto, drenagem adequada e canais para o escoamento das águas da chuva significa, muitas vezes, desperdiçar recursos públicos e transferir o problema para o futuro.
Esse cenário não é uma realidade exclusiva de Eunápolis. Em diversos municípios do extremo sul da Bahia, administrações acabam priorizando obras de maior impacto visual enquanto deixam de investir em infraestrutura básica, prevenção e planejamento urbano.
O temporal expôs novamente a fragilidade da infraestrutura
Entre os dias 13 e 14 de julho, um vendaval acompanhado de fortes chuvas provocou diversos transtornos em Eunápolis e em outras cidades do extremo sul da Bahia.
Foram registrados destelhamentos, queda de árvores, danos à rede elétrica e interrupção no abastecimento de água em vários bairros. No bairro Urbis III, parte do telhado de uma residência desabou, obrigando uma moradora a deixar o imóvel após os danos provocados pelo temporal.
É evidente que nenhuma prefeitura tem o poder de impedir que chova ou controlar a força da natureza. Entretanto, cabe ao poder público reduzir os impactos por meio de ações preventivas.
Limpeza periódica dos bueiros, manutenção da drenagem, poda preventiva de árvores, fiscalização de construções em áreas de risco, recuperação de encostas e planejamento urbano são medidas que diminuem significativamente os prejuízos causados por eventos climáticos.
Infelizmente, muitos gestores só agem depois que a tragédia acontece.
Festa de um lado e investigação do outro
Outro fato que chamou a atenção foi que, enquanto a cidade realizava uma grande festa, o Ministério Público cumpria mandados de busca e apreensão relacionados a uma investigação envolvendo contratos da área da saúde.
É importante destacar que toda investigação deve respeitar o devido processo legal e a presunção de inocência. Somente ao final das apurações será possível concluir se houve ou não irregularidades.
Entretanto, quando recursos destinados à saúde passam a ser investigados, a sociedade tem o direito de acompanhar os fatos e cobrar total transparência dos órgãos públicos.
Dinheiro da saúde representa atendimento médico, exames, medicamentos, cirurgias e qualidade de vida para milhares de pessoas. Qualquer suspeita envolvendo esses recursos precisa ser rigorosamente apurada.
A prevenção quase nunca dá voto… até que a tragédia aconteça
Existe uma cultura equivocada na política brasileira de acreditar que prevenção não gera votos.
Limpar bueiros, construir galerias pluviais, ampliar a rede de esgoto, podar árvores, fiscalizar construções irregulares e recuperar encostas dificilmente rendem fotografias para propaganda eleitoral. São obras que ficam escondidas debaixo da terra ou passam despercebidas pela maioria da população.
Por outro lado, quando essas obras deixam de ser realizadas, os problemas aparecem rapidamente: ruas alagadas, casas destruídas, bairros sem energia elétrica, famílias desabrigadas e, infelizmente, vidas perdidas.
Governar não é apenas organizar grandes eventos ou inaugurar obras de impacto visual. Governar é cuidar daquilo que protege a população todos os dias.
Onde estão os órgãos fiscalizadores?
Diante dessa realidade, é natural que muitos cidadãos façam alguns questionamentos.
Onde está a sociedade civil organizada?
Onde estão os conselhos municipais?
Onde está a fiscalização permanente sobre obras, contratos e ocupações em áreas de risco?
Qual o papel dos vereadores na fiscalização do Poder Executivo?
O Ministério Público, os Tribunais de Contas e os demais órgãos de controle possuem papel fundamental na defesa do patrimônio público. Mas a participação da sociedade também é indispensável.
A imprensa, por sua vez, não pode servir apenas para divulgar festas e inaugurações. Seu compromisso deve ser também investigar, questionar, fiscalizar e dar voz aos problemas enfrentados pela população.
Não se trata de ser contra a realização de festas populares.
Eventos culturais são importantes para movimentar a economia, gerar empregos e fortalecer a identidade cultural do município.
O que não pode acontecer é a festa receber mais atenção do que a cidade.
O cidadão quer cultura, mas também quer saúde.
Quer lazer, mas também quer segurança.
Quer desenvolvimento econômico, mas também quer infraestrutura.
Quer ruas asfaltadas, mas também precisa de drenagem, rede de esgoto, poda de árvores, prevenção de alagamentos e planejamento urbano.
A boa administração pública não é aquela que entrega apenas grandes eventos.
É aquela que entrega qualidade de vida durante os 365 dias do ano.
Festa acaba.
O palco é desmontado.
Os artistas vão embora.
Mas os problemas da cidade continuam.
Eunápolis precisa continuar investindo na cultura e no turismo.
Mas precisa, acima de tudo, investir na prevenção, na infraestrutura, na transparência e no respeito ao dinheiro público.
Porque cuidar da cidade é, antes de tudo, cuidar da vida das pessoas.
