Cara a Cara com Roberto Nogueira | Jornal Trancoso News
As eleições terminaram, mas a divisão política do Brasil parece estar longe de acabar. Nas redes sociais, pessoas de direita e de esquerda continuam trocando acusações, anunciando boicotes, rompendo amizades e até revendo relações pessoais por causa de suas escolhas políticas.
Esse cenário mostra que o país continua profundamente dividido. Mas existe uma diferença importante entre se afastar de alguém e perseguir alguém.
Ninguém deve ser agredido, humilhado, ameaçado ou maltratado porque votou em Lula, Bolsonaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato. O voto é livre, e cada cidadão possui o direito de escolher seu candidato, seu partido e sua ideologia.
Da mesma forma, ninguém é obrigado a manter amizade, convivência próxima ou qualquer relação pessoal com alguém com quem já não compartilha os mesmos valores e princípios. Respeitar uma pessoa não significa ser obrigado a conviver com ela.
Uma pessoa pode simplesmente decidir se afastar e seguir seu caminho, desde que essa decisão não se transforme em ódio, vingança, perseguição ou violência.
Também considero importante compreender que o voto é livre, mas nossas escolhas podem produzir consequências naturais nas relações pessoais. Alguém possui todo o direito de votar em quem quiser, assim como outra pessoa possui o direito de discordar profundamente dessa escolha e preferir manter distância.
O que não pode acontecer é transformar divergência política em licença para maltratar ou perseguir quem pensa diferente.
Essa mesma lógica vale para ações voluntárias. Se alguém ajudava uma campanha social, fazia doações com recursos próprios ou participava de alguma iniciativa particular e decidiu não continuar, essa escolha também deve ser respeitada. Caridade verdadeira nasce da vontade e não da obrigação.
Por outro lado, é preciso separar relações pessoais de situações em que existem responsabilidades legais. Uma coisa é escolher com quem desejamos manter amizade ou convivência. Outra é usar um emprego, uma empresa ou um cargo público para perseguir alguém exclusivamente por causa do seu voto.
Liberdade individual não pode ser confundida com autorização para violar direitos.
Talvez o Brasil tenha chegado a um momento em que pessoas de direita e esquerda passarão a conviver cada vez mais com aqueles que compartilham seus próprios valores. Isso pode ser triste para alguns, mas também faz parte da liberdade de escolha.
Quem é de esquerda possui o direito de defender suas ideias. Quem é de direita possui exatamente o mesmo direito. Podemos pensar diferente, caminhar por lados opostos e até decidir não caminhar mais juntos.
O que precisamos impedir é que essa divisão se transforme em ódio.
De um lado, pessoas de esquerda acusam integrantes da direita de serem fascistas, ricos ou insensíveis. Do outro, pessoas de direita criticam setores da esquerda por fanatismo partidário, dependência excessiva do Estado e defesa incondicional de determinados governos.
Essas generalizações apenas aumentam a distância entre os dois lados.
Talvez seja realmente o momento de cada um viver no seu espaço, respeitando o direito do outro de fazer suas próprias escolhas. Não precisamos concordar com tudo, nem gostar de todos, mas precisamos respeitar os limites da convivência democrática.
O tempo dará muitas respostas.
A economia falará. A saúde falará. A educação falará. A segurança falará. O emprego e a renda falarão.
E serão os resultados que mostrarão, no futuro, se as escolhas políticas feitas pelo país foram boas ou ruins.
Até lá, cada um deve ter a liberdade de seguir o seu caminho.
O voto é livre. A opinião é livre. A convivência também deve ser livre. Mas liberdade nunca pode significar perseguição, violência ou ódio.
Podemos seguir por caminhos opostos e ainda assim respeitar o direito do outro de escolher uma direção diferente.
