Faltando poucos dias para o segundo turno das eleições presidenciais, o Nordeste voltou a ocupar o centro das atenções da campanha.
A região continua sendo o principal reduto eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas os números do primeiro turno de 2026 mostram uma mudança que merece atenção: a direita aumentou sua votação no Nordeste quando comparamos o desempenho de Flávio Bolsonaro neste ano com o resultado obtido por Jair Bolsonaro em 2022.
É justamente nesse cenário que aparece o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), uma das principais vozes da direita nas redes sociais.
No dia 20 de outubro, Nikolas publicou o vídeo intitulado “O Nordeste que foi esquecido”, no qual moradores da região relatam dificuldades relacionadas ao custo de vida, saúde, saneamento, segurança e oportunidades, além de criticarem promessas atribuídas ao governo Lula.
O vídeo foi gravado em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, e fazia parte de uma estratégia claramente direcionada ao eleitorado nordestino. Nikolas chegou a anunciar a produção como uma das mais importantes de sua campanha.
A repercussão foi gigantesca.
Até o dia 22 de outubro, o conteúdo havia ultrapassado 160 milhões de visualizações no Instagram, mesmo depois de ter o áudio retirado da plataforma por uma solicitação relacionada a direitos autorais da música utilizada no vídeo.
O alcance foi tão expressivo que chegou ao Tribunal Superior Eleitoral. Nesta sexta-feira, 23 de outubro, o TSE determinou que a Meta apresentasse informações sobre a distribuição e a amplificação do conteúdo, depois de questionamentos da campanha de Lula sobre possível favorecimento algorítmico. A Meta nega favorecer políticos e afirma que o alcance depende do engajamento, dos compartilhamentos e de outros fatores.
Independentemente dessa discussão, é impossível negar que o vídeo alcançou uma dimensão enorme justamente na reta final da eleição.
A grande pergunta é: isso poderá se transformar em votos?
O Nordeste continua sendo a grande força de Lula
No primeiro turno de 2026, Lula venceu nos nove estados nordestinos.
O presidente recebeu 21.494.584 votos, correspondentes a 63,77% dos votos válidos da região.
Flávio Bolsonaro recebeu 10.398.973 votos, ou 30,85%.
A diferença favorável a Lula foi de aproximadamente 11,1 milhões de votos.
É uma vantagem enorme e mostra que qualquer análise que trate o Nordeste como uma região já conquistada pela direita não encontra respaldo nos números.
Mas existe outro dado que também não pode ser ignorado.
A direita cresceu no Nordeste
Quando comparamos o primeiro turno de 2026 com o primeiro turno de 2022, encontramos uma mudança importante.
Em 2022, Jair Bolsonaro recebeu 8.787.394 votos no Nordeste, equivalentes a 26,97% dos votos válidos.
Neste ano, Flávio Bolsonaro recebeu 10.398.973 votos, ou 30,85%.
Isso significa que Flávio conquistou 1.611.579 votos a mais do que seu pai havia conseguido quatro anos antes, um crescimento de aproximadamente 18,3% na votação absoluta da direita representada pela família Bolsonaro na região.
Lula fez o movimento contrário.
No primeiro turno de 2022, recebeu 21.753.139 votos no Nordeste. Em 2026, foram 21.494.584, uma redução de aproximadamente 258 mil votos.
Com esses dois movimentos, a vantagem de Lula sobre o candidato da direita caiu de aproximadamente 12,97 milhões de votos em 2022 para 11,10 milhões em 2026.
Portanto, embora Lula continue tendo uma vantagem muito expressiva no Nordeste, a distância diminuiu.
E isso pode ser politicamente importante numa eleição nacional tão apertada.
O que Nikolas tenta fazer
Na minha análise, o objetivo do vídeo de Nikolas não precisa ser transformar o Nordeste inteiro numa região de maioria bolsonarista.
Isso seria uma missão muito mais difícil.
O objetivo pode ser simplesmente reduzir a diferença.
Se Flávio conseguir aumentar alguns pontos percentuais em estados como Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Paraíba e Rio Grande do Norte, poderá diminuir o número de votos que Lula utiliza para compensar as vantagens da direita em outras regiões do país.
Nas eleições de 2022, isso foi fundamental.
No segundo turno daquele ano, Lula abriu uma vantagem de aproximadamente 12,57 milhões de votos sobre Jair Bolsonaro no Nordeste. Essa diferença foi decisiva para compensar as vantagens que Bolsonaro teve no Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte.
Em 2026, a situação já começou diferente.
Flávio terminou o primeiro turno na frente nacionalmente e, ao mesmo tempo, conseguiu melhorar o desempenho da direita dentro do principal reduto eleitoral de Lula.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes desta eleição.
Pesquisa ainda mostra ampla vantagem de Lula
Apesar do avanço da direita registrado nas urnas no primeiro turno, as pesquisas mostram que Lula continua muito forte na região.
O Datafolha divulgado nesta sexta-feira, 23 de outubro, apresentou Lula com 65% das intenções de voto no Nordeste e Flávio Bolsonaro com 30%.
No cenário nacional da mesma pesquisa, os dois aparecem empatados em 50% dos votos válidos.
Isso mostra a importância estratégica do Nordeste.
Enquanto a disputa nacional está praticamente empatada, Lula mantém uma vantagem muito grande na região.
Para Flávio Bolsonaro, portanto, talvez não seja necessário vencer Lula no Nordeste. Basta reduzir suficientemente essa diferença para melhorar suas chances no resultado nacional.
Um vídeo consegue mudar uma eleição?
Essa pergunta só poderá ser respondida com segurança depois das urnas.
Ter 160 milhões de visualizações não significa possuir 160 milhões de eleitores convencidos.
Uma mesma pessoa pode visualizar mais de uma vez, parte do público pode estar fora do Nordeste e muitos que assistiram podem já ter o voto decidido.
Além disso, o próprio vídeo foi alvo de críticas. Adversários de Nikolas questionaram aspectos da produção, e foi divulgado que os depoimentos foram gravados na mesma cidade, Luís Eduardo Magalhães, embora os indicadores apresentados no encerramento tratem da região Nordeste como um todo.
Por outro lado, seria igualmente precipitado ignorar seu alcance.
Em uma eleição decidida por diferenças pequenas, conteúdos capazes de alcançar dezenas de milhões de pessoas podem contribuir para mobilizar apoiadores, levantar discussões e colocar determinados assuntos no centro do debate.
Nikolas já demonstrou outras vezes possuir grande capacidade de comunicação nas redes sociais.
E o fato de sua campanha direcionar essa força justamente para o Nordeste mostra que a direita percebeu uma oportunidade política naquela região.
O Nordeste poderá novamente decidir a eleição?
Essa é uma das grandes perguntas deste segundo turno.
Lula precisa preservar sua enorme vantagem regional.
Flávio precisa diminuir essa diferença.
O resultado do primeiro turno mostrou que isso já começou a acontecer em alguma medida: a direita cresceu aproximadamente 1,6 milhão de votos no Nordeste em relação a 2022, enquanto a vantagem de Lula na região diminuiu.
Agora surge o vídeo de Nikolas Ferreira, com uma repercussão extraordinária, justamente nos últimos dias de campanha.
Será suficiente para mudar votos?
Ainda não sabemos.
Mas existe uma diferença importante entre esta eleição e as anteriores.
A direita já mostrou no primeiro turno que consegue crescer dentro do Nordeste.
Talvez a principal disputa desta reta final não seja saber se Flávio Bolsonaro conseguirá vencer Lula na região.
A verdadeira pergunta pode ser outra:
quanto da vantagem de Lula no Nordeste Flávio Bolsonaro conseguirá retirar até domingo?
Se conseguir diminuir significativamente essa diferença, o Nordeste poderá novamente exercer um papel decisivo na escolha do próximo presidente da República — desta vez não apenas pelos votos dados a Lula, mas também pelo crescimento da direita dentro de uma região que, durante muitos anos, foi considerada praticamente impenetrável eleitoralmente por esse campo político.
No próximo domingo, as urnas darão a resposta.
Cara a Cara com Roberto Nogueira
Roberto Nogueira
