Cara a Cara / Roberto Nogueira
A Prefeitura de Eunápolis anunciou o pagamento antecipado dos salários dos servidores municipais, movimentando aproximadamente R$ 23 milhões e colocando um volume significativo de recursos na economia do município.
Sem dúvida, o pagamento dos servidores tem reflexos positivos no comércio, no setor de serviços e em toda a cadeia econômica local. Com dinheiro circulando, supermercados, farmácias, lojas, restaurantes e prestadores de serviços acabam sendo beneficiados.
Até aí, nada de errado. Pelo contrário: servidor receber seu salário em dia é algo importante e necessário.
A questão que merece reflexão é outra: até que ponto o cumprimento de uma obrigação administrativa deve ser transformado em grande peça de divulgação política justamente às vésperas de uma eleição?
Pagar salário não é favor. É obrigação de qualquer administração pública que tenha responsabilidade com seus servidores.
Quando uma gestão utiliza uma ação administrativa normal como instrumento de forte publicidade em pleno período eleitoral, é legítimo que a população questione se existe apenas a intenção de informar ou se também existe algum interesse político por trás dessa divulgação.
O debate ganha ainda mais importância quando pessoas diretamente ligadas ao grupo político que comanda o município participam da disputa eleitoral. No caso de Eunápolis, Cláudia Oliveira, esposa do prefeito Robério Oliveira, é deputada estadual pelo PSD e concorre à reeleição para a Assembleia Legislativa da Bahia nas eleições de 2026.
Isso não significa afirmar que houve crime eleitoral ou qualquer irregularidade. Uma conclusão dessa natureza cabe à Justiça Eleitoral e aos órgãos de fiscalização, depois da análise dos fatos, das circunstâncias e da legislação.
Mas o cidadão tem o direito de perguntar: a divulgação de milhões de reais pagos pela Prefeitura, tão próxima das eleições, representa apenas prestação de contas à população ou pode acabar produzindo algum tipo de benefício político-eleitoral?
Esse questionamento não deve se limitar a Eunápolis.
Em vários municípios e estados brasileiros, é comum vermos, quando as eleições se aproximam, uma verdadeira corrida para anunciar obras, assinar ordens de serviço, entregar equipamentos, inaugurar estruturas e divulgar investimentos públicos.
Obras e investimentos são importantes e devem acontecer durante todo o mandato. O problema surge quando aquilo que deveria fazer parte naturalmente da administração pública passa a receber uma exposição extraordinária justamente no momento em que parentes, aliados ou integrantes do grupo político de quem governa estão disputando votos.
É nesse ponto que os órgãos de fiscalização precisam estar atentos para verificar se a máquina pública está sendo utilizada exclusivamente para atender aos interesses da população ou se determinadas ações e publicidades podem produzir algum benefício eleitoral.
Não estamos afirmando que pagar os servidores antecipadamente seja ilegal. Muito menos que anunciar uma obra ou uma ordem de serviço, por si só, configure crime eleitoral.
O que estamos defendendo é que a mesma atenção dispensada aos candidatos deve ser dada à utilização da estrutura administrativa durante o período eleitoral.
Governar bem, pagar salários, realizar obras e prestar serviços não deveria ser algo extraordinário em época de eleição. Deveria acontecer durante os quatro anos de mandato.
Quando essas ações se concentram ou recebem divulgação excepcional justamente perto das urnas, cabe ao eleitor observar, questionar e formar sua própria opinião.
Porque dinheiro público pertence à população. Obra pública pertence à população. Salário de servidor é obrigação administrativa.
Administração pública não pode ser confundida com campanha eleitoral.
