CARA A CARA /ROBERTO NOGUEIRA
Confesso que não entendo o que passa na cabeça do povo baiano e, muitas vezes, fico me perguntando o que leva um povo a insistir no que não está dando certo. Essa eleição me fez crer que o povo gosta de insistir no que não está dando certo e continuar no que está errado. Isso me leva a pensar que, para uma grande parte do povo baiano, quanto pior, melhor.
Errar uma vez é normal, mas duas, três e, pela quarta vez, para mim, é gostar do que não presta e achar que tudo que está aí está bom, que a saúde, a educação, o saneamento básico e a segurança pública estão às mil maravilhas.
Sem dúvida, o resultado das eleições na Bahia me provoca uma reflexão difícil e um questionamento: será que o erro está nos políticos ou nas pessoas que não sabem votar?
O PT governa o estado desde 2007 e, com a reeleição de Jerônimo Rodrigues no primeiro turno das eleições de 2026, alcançará mais um ciclo de quatro anos no comando da Bahia. Jerônimo recebeu 55,80% dos votos válidos. Nas mesmas eleições, os baianos escolheram Rui Costa e reelegeram Jaques Wagner, ambos do PT, para representar o estado no Senado Federal.
As urnas precisam ser respeitadas. Mas respeitar a decisão da maioria não significa concordar com tudo que está aí ou querer achar normal aquilo que não pode ser normalizado.
Depois de quase duas décadas de governos do mesmo grupo político, os indicadores na área social, a segurança pública, as estradas e a saúde da Bahia estão, sem dúvida, cada vez piores.
O Índice de Progresso Social Brasil 2025 colocou a Bahia na 22ª posição entre as 27 unidades da Federação, com 57,67 pontos. Entre os nove estados nordestinos, apenas o Maranhão ficou atrás da Bahia naquele levantamento.
Outro dado merece reflexão. Em maio de 2026, a Bahia possuía 5.723.993 pessoas beneficiárias do Bolsa Família, o equivalente a 38,49% da população estadual, distribuídas em mais de 2,36 milhões de famílias. O Bolsa Família é uma política federal importante para quem necessita de proteção social, e esse número, sozinho, não mede a qualidade de um governo estadual. Mas revela a dimensão da vulnerabilidade econômica existente em nosso estado e, sem dúvida, através desses dados, mostra claramente que algo está errado e que nosso estado passa por problemas seríssimos, para que essa triste realidade possa ser melhorada.
Na segurança pública, a situação continua preocupante. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, a Bahia apresentou, em 2025, uma taxa de 36,8 mortes violentas intencionais para cada 100 mil habitantes, a segunda maior entre os estados brasileiros. O levantamento também apontou cinco municípios baianos entre os dez com maiores taxas de violência letal, incluindo Eunápolis e Porto Seguro.
Nas estradas, um diagnóstico produzido pelo próprio Governo da Bahia para seu planejamento de longo prazo mostrou que, em 2024, somente 26,5% das rodovias pavimentadas avaliadas no estado estavam classificadas como boas ou ótimas. O percentual estava abaixo da média do Nordeste, de 29,7%, e da média brasileira, de 32,9%.
Na saúde, quem vive no interior conhece de perto as dificuldades.
Aqui em Porto Seguro, o Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães já enfrentou sucessivos problemas trabalhistas e administrativos. Em junho deste ano, médicos anunciaram paralisação parcial dos atendimentos não essenciais em razão de atraso superior a 60 dias nos honorários. Dias depois, a Secretaria da Saúde do Estado informou que estava substituindo a organização responsável pela administração da unidade após identificar inconformidades assistenciais, operacionais e administrativas.
Há ainda questões políticas que não podem simplesmente desaparecer depois das eleições.
Rui Costa, agora eleito senador, presidia o Consórcio Nordeste quando, durante a pandemia, foram pagos cerca de R$ 48,7 milhões pela compra de 300 respiradores que não foram entregues. A investigação sobre o episódio continua produzindo desdobramentos. Em julho de 2026, o ministro Flávio Dino determinou que o inquérito retornasse ao STJ. Também neste ano, auditoria do Tribunal de Contas do Estado apontou falhas na operação e recomendou a rejeição das contas relativas à gestão do Consórcio naquele período. Rui Costa nega irregularidades e já afirmou que o Consórcio foi vítima de pessoas desonestas.
Já o senador Jaques Wagner, também reeleito, tornou-se investigado na Operação Compliance Zero, relacionada ao Banco Master. Em junho, o STF autorizou busca e apreensão e outras medidas cautelares. Segundo a investigação da Polícia Federal, são apurados indícios de possível atuação parlamentar em benefício de interesses do banco em troca de vantagens indevidas. Wagner nega irregularidades e afirma que provará sua inocência.
É diante desse conjunto de fatos que faço minha reflexão.
O adversário de Jerônimo, ACM Neto, governou Salvador por dois mandatos e teve índices elevados de aprovação durante sua administração. Em levantamento da Paraná Pesquisas realizado em 2015, sua gestão alcançou 84,7% de aprovação, a maior entre as 13 capitais analisadas naquela pesquisa. Ainda assim, os baianos decidiram manter o atual grupo político no governo estadual.
Não considero correto chamar o eleitor baiano de ignorante ou dizer que lhe falta inteligência simplesmente porque fez uma escolha diferente daquela que outras pessoas consideravam melhor. Pois sabemos que o voto é soberano e existem inúmeros fatores que levam cada cidadão a escolher um candidato. Um deles é quem promete mais e quem oferece mais benefícios pessoais aos seus eleitores.
Na verdade, estamos vivendo um retrocesso na política pública do nosso estado. As pessoas estão cada vez mais desesperançosas e parecem não acreditar que algo de bom pode e deve ser feito. Estão acreditando no “quanto pior, melhor”, o que é muito triste.
É triste quando as pessoas perdem a esperança de que algo ainda pode ser feito e de que devemos promover a alternância de poder para que outros possam melhorar a vida das pessoas, em vez de insistir no que não está dando certo.
Política não deveria ser torcida organizada. Não deveríamos escolher eternamente uma legenda apenas porque sempre votamos nela, nem rejeitar uma mudança simplesmente porque ela vem do outro lado político.
Se a segurança está ruim, precisamos cobrar. Se a saúde apresenta problemas, precisamos cobrar. Se nossas estradas precisam melhorar, precisamos cobrar. Se milhões de pessoas continuam dependendo de programas de transferência de renda para sobreviver, precisamos discutir como criar emprego, renda e oportunidades para que essas famílias possam prosperar.
Muitas vezes, só vemos uma forma de fazer com que as coisas possam melhorar: através da mudança de governo e da escolha de pessoas que realmente queiram fazer algo pela Bahia e pelos baianos.
E, se houve avanços, também devemos reconhecê-los.
O que não podemos fazer é fechar os olhos para a realidade.
A Bahia é um estado extraordinariamente rico em história, cultura, recursos naturais, turismo e, acima de tudo, em seu povo. Merece uma discussão política à altura de sua grandeza.
Não escrevo estas palavras com raiva nem com ódio de quem votou diferente de mim. Escrevo com preocupação.
Governantes passam. Partidos passam. O que permanece são as consequências das decisões tomadas por milhões de cidadãos.
O povo baiano precisa acordar e ver que, da forma como está, não pode mais continuar. É preciso que as mudanças sejam feitas, que se conserte o que está errado e que não continuemos com os mesmos que estão aí há mais de 20 anos.
Desejo que os que foram eleitos possam corresponder com melhorias reais na segurança, na saúde, nas estradas, na geração de oportunidades e na qualidade de vida do povo baiano.
E que cada um que não votou no atual governo seja um fiscalizador dos trabalhos que serão feitos daqui para frente. Que possamos ser soldados na busca por dias melhores e que possamos libertar essa população das mãos daqueles que nada fizeram até aqui para melhorar a vida das pessoas que aqui vivem.
Porque, independentemente de esquerda ou direita, quem precisa vencer é a Bahia.
