Cara a Cara com Roberto Nogueira
Em período eleitoral, é comum vermos ruas cheias, bandeiraços, caminhadas, passeatas e comícios reunindo centenas ou até milhares de pessoas. Para quem olha de fora, aquela multidão pode transmitir a impressão de força política, popularidade e apoio espontâneo.
Mas será que todas aquelas pessoas estão realmente ali porque admiram determinado político, acreditam em suas propostas ou reconhecem o trabalho que ele realizou?
Essa é uma pergunta que precisa ser feita.
Existe uma percepção recorrente durante as campanhas eleitorais de que algumas pessoas podem participar de determinados atos políticos recebendo algum tipo de pagamento ou vantagem para carregar bandeiras, acompanhar caminhadas, participar de passeatas ou permanecer em eventos de campanha.
É importante deixar claro: não estamos afirmando que todos os eventos políticos funcionem dessa maneira nem acusando determinado candidato ou partido de praticar qualquer irregularidade. O que fazemos aqui é levantar uma reflexão sobre uma prática que merece atenção e fiscalização quando houver indícios concretos.
E fica uma pergunta que sempre faço: será que um político se sente realmente prestigiado sabendo que uma parte das pessoas que está à sua volta pode não estar ali por amor, respeito, admiração ou confiança em seu trabalho, mas por outras razões?
Qual é o verdadeiro valor político de uma multidão quando não sabemos quantas pessoas foram espontaneamente e quantas poderiam ter sido mobilizadas por algum interesse financeiro?
A política deveria ser conquistada pelo trabalho, pela confiança e pelo respeito da população.
Quando um prefeito, governador, deputado ou qualquer outro agente público realiza um bom trabalho, administra corretamente, atende à população e apresenta resultados, naturalmente haverá pessoas dispostas a acompanhá-lo, defendê-lo e participar dos seus eventos.
É justamente por isso que precisamos discutir até que ponto o poder econômico pode interferir na imagem de força apresentada durante uma campanha.
Não podemos considerar normal que dinheiro substitua prestígio, liderança ou reconhecimento popular.
Quando alguém precisa utilizar sua capacidade financeira para colocar pessoas nas ruas apenas para produzir fotografias, vídeos ou a aparência de uma grande mobilização popular, surge uma questão importante sobre a autenticidade daquele apoio.
E onde está a fiscalização?
A Justiça Eleitoral e os demais órgãos responsáveis precisam observar com atenção essas situações e, existindo indícios de irregularidade, verificar a origem dos recursos, a forma de contratação e se a legislação eleitoral está sendo respeitada.
É claro que campanhas possuem despesas legítimas e podem contratar trabalhadores para determinadas atividades previstas pela legislação. O que não pode acontecer é transformar isso em instrumento de engano para fazer o eleitor acreditar que existe uma manifestação espontânea de apoio popular quando a realidade eventualmente pode ser diferente.
Essa velha ideia de que “todo mundo faz” não pode servir como justificativa para nenhuma prática irregular.
Se existir alguma conduta contrária à legislação eleitoral, ela precisa ser investigada independentemente de quem seja o candidato, partido ou grupo político envolvido.
Político que realiza um bom trabalho não deveria precisar comprar demonstração de carinho, respeito ou admiração.
Prestígio verdadeiro não se compra. Confiança se conquista.
No final das contas, uma multidão pode impressionar uma fotografia, um vídeo ou uma rede social.
Mas o que realmente deveria impressionar o eleitor são os resultados, a história, o caráter público, as propostas e aquilo que cada candidato efetivamente fez pela população.
Porque uma coisa é encher uma rua. Outra, completamente diferente, é conquistar verdadeiramente a confiança das pessoas.
