Coluna Cara a Cara – Roberto Nogueira
Entre os dias 28 e 31 de maio, Trancoso recebeu a unidade do SAC Móvel, instalada ao lado da Feirinha de Trancoso, oferecendo diversos serviços à população, entre eles a emissão da Carteira de Identidade, antecedentes criminais, atendimento da Ouvidoria Geral do Estado e serviços do Planserv.
A iniciativa, segundo informações divulgadas, faz parte de um projeto do Governo do Estado da Bahia e contou com o apoio da deputada estadual Cláudia Oliveira para que o atendimento chegasse ao distrito. É justo reconhecer que a proposta possui grande relevância social, principalmente para moradores de localidades mais afastadas dos centros urbanos, onde o acesso aos serviços públicos muitas vezes é difícil e oneroso.
Segundo informações da organização, mais de 200 pessoas foram beneficiadas diariamente pelos serviços oferecidos pelo SAC Móvel. O número demonstra a importância da ação e evidencia uma demanda reprimida por atendimentos básicos na região. A grande procura mostra que muitos moradores enfrentam dificuldades para acessar serviços essenciais e aguardam oportunidades como essa para regularizar documentos e resolver pendências.
No entanto, além da importância da ação, o que chamou a atenção foi justamente a enorme procura da população e as dificuldades enfrentadas por muitos cidadãos durante os atendimentos. Filas extensas, pessoas aguardando durante horas, idosos, mães com crianças e trabalhadores que precisaram deixar suas atividades para tentar garantir atendimento revelaram uma realidade preocupante.
Mais do que discutir a organização do evento, o episódio trouxe à tona uma questão ainda mais profunda: a carência da população por serviços básicos e essenciais.
Quando centenas de pessoas enfrentam longas filas para conseguir emitir um documento ou resolver uma pendência administrativa, fica evidente que existe uma demanda reprimida que há muito tempo não está sendo atendida de forma adequada. O que se viu em Trancoso demonstra que milhares de cidadãos continuam encontrando dificuldades para acessar direitos que deveriam estar disponíveis de maneira permanente e próxima de suas comunidades.
O caso também expõe uma contradição. Trancoso é conhecido internacionalmente como um dos destinos turísticos mais valorizados do Brasil, movimentando milhões de reais todos os anos. Porém, por trás da beleza natural e do crescimento econômico, existe uma população que ainda enfrenta dificuldades para acessar serviços públicos básicos.
Muitos moradores questionaram não apenas a forma como os atendimentos foram organizados, mas também o momento em que a ação aconteceu. Em períodos que antecedem as eleições, é natural que a população passe a observar com mais atenção iniciativas promovidas por agentes políticos. Isso não significa desmerecer a importância do serviço prestado, mas reforça a necessidade de que ações de cidadania sejam permanentes e não apenas pontuais.
É importante destacar que o debate não deve ser sobre quem trouxe o serviço ou qual o ganho político que possa existir por trás da iniciativa. O principal questionamento levantado pela comunidade é por que uma região tão importante para Porto Seguro e para a economia do Estado ainda depende de ações temporárias para garantir serviços básicos que deveriam estar disponíveis de forma contínua para a população.
O acesso à documentação, à informação e aos serviços públicos não deve depender de eventos esporádicos. Trata-se de um direito garantido a todos os cidadãos e que deveria estar disponível de forma permanente durante todo o ano.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que centenas de pessoas conseguiram resolver problemas que talvez demorassem meses para serem solucionados. Para essas famílias, a presença do SAC Móvel representou uma oportunidade valiosa. Por isso, a discussão não deve ser sobre a existência do serviço, mas sobre a necessidade de ampliá-lo, estruturá-lo melhor e garantir que ele alcance todos aqueles que precisam.
O episódio vivido em Trancoso deixa uma importante reflexão para o poder público. A grande procura pelo atendimento mostrou que existe uma população necessitada, carente de serviços básicos e que espera mais atenção dos governantes. Mostrou também que cidadania não pode ser tratada como favor, mas como obrigação do Estado.
Que a experiência sirva de aprendizado para que futuras ações sejam realizadas com mais planejamento, mais estrutura e mais respeito ao cidadão. Afinal, quando o acesso a direitos básicos gera filas quilométricas e sofrimento, o problema não está apenas na organização do evento, mas na ausência permanente desses serviços na vida da população.
A verdadeira inclusão social não acontece apenas quando o serviço chega. Ela acontece quando ele permanece acessível para todos, todos os dias do ano. E os mais de 200 atendimentos realizados diariamente em Trancoso demonstram que a necessidade existe, que a população precisa e que o poder público deve buscar soluções permanentes para atender essa demanda.
