Por Roberto Nogueira – Cara a Cara
Nos últimos dias, ganhou repercussão nacional a declaração da servidora pública Rebeca Ramagem, esposa do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, que afirmou estar sendo vítima de perseguição após a Procuradoria-Geral do Estado de Roraima (PGE-RR) determinar o retorno ao trabalho presencial.
Segundo a PGE-RR, não houve suspensão recente de teletrabalho, uma vez que o regime remoto teria sido encerrado ainda em 2020, com o fim das medidas excepcionais adotadas durante a pandemia. O órgão negou qualquer motivação política na decisão e afirmou que o retorno segue critérios administrativos aplicáveis aos demais servidores.
O caso levanta um debate importante: até que ponto o serviço público pode ser flexibilizado sem comprometer o princípio da igualdade?
Milhões de brasileiros acordam todos os dias cedo, enfrentam transporte público lotado, dificuldades financeiras e jornadas exaustivas para garantir o sustento com dignidade. É natural que a sociedade questione quando surgem situações que aparentam tratamento diferenciado, principalmente envolvendo pessoas ligadas a figuras públicas.
Não se trata aqui de esquerda ou direita. Eu, particularmente, tenho posicionamentos ideológicos claros. Mas valores éticos e morais devem estar acima de qualquer bandeira partidária.
O que está em jogo é algo maior: respeito à coisa pública.
O servidor público exerce função que pertence à sociedade. Transparência, igualdade de tratamento e responsabilidade administrativa são pilares constitucionais. Quando há dúvida sobre privilégios, a credibilidade das instituições é colocada em risco.
Não podemos normalizar comportamentos que fragilizam a confiança da população. Também não podemos transformar qualquer decisão administrativa em narrativa automática de perseguição política sem que haja comprovação clara disso.
O Brasil vive um momento delicado. Casos recentes envolvendo escândalos financeiros, desvios e suspeitas em diversas esferas — federal, estadual e municipal — têm abalado a esperança de muitos cidadãos. A indignação não pode ser seletiva. Se errar, que seja cobrado — independentemente do lado.
Precisamos abandonar a cultura do “se eles fazem, eu também faço”.
Não podemos nivelar a sociedade por baixo.
Ser patriota não é apenas defender um discurso. É exigir integridade. É cobrar coerência. É não aceitar privilégios disfarçados de exceção administrativa.
O serviço público não pode ser espaço de benefício pessoal. Ele deve ser instrumento de eficiência e respeito ao contribuinte.
Ainda acredito que podemos mudar não o mundo inteiro, mas nosso entorno. Podemos fortalecer valores como honestidade, responsabilidade e compromisso com o que é certo.
Não importa o cargo. Não importa o partido.
O que importa é a postura.
Porque quando a ética se torna opcional, a sociedade inteira paga a conta.
E o Brasil precisa, mais do que nunca, de cidadãos que escolham fazer a coisa certa — mesmo quando ninguém está olhando.
