Jornal Trancoso News
Coluna Cara a Cara – Roberto Nogueira
A morte do empresário Giuliano Finimundi Verdi, de 51 anos, herdeiro do consórcio Rodobens, ocorrida no dia 2 de janeiro, em Trancoso, vítima de um infarto fulminante, reacendeu o debate sobre a real situação da saúde pública no distrito.
O vereador Bolinha divulgou um vídeo comentando o episódio, o que é legítimo dentro de seu papel como representante do povo. Cabe, sim, ao vereador fiscalizar, cobrar e alertar as autoridades sobre a necessidade de melhorias na saúde local. O que não pode — e não deve — acontecer é a transformação de uma tragédia em sensacionalismo ou em instrumento de exploração política. A vida humana não pode ser usada como moeda eleitoral.
Diante de uma perda tão dolorosa, é preciso cautela e respeito. Não é momento de explorar tragédias nem de transformar a dor em palco político. Ainda assim, é inegável que o episódio expôs fragilidades antigas do sistema de saúde de Trancoso.
As declarações de que a ambulância utilizada não seria adequada ao atendimento geraram polêmica. É importante esclarecer que nem toda ocorrência exige uma ambulância de suporte avançado. Trata-se de uma fatalidade. No entanto, isso não elimina a necessidade de investimentos sérios, contínuos e estruturais na saúde pública.
Essa deficiência não é exclusiva de Trancoso. Ela atinge Porto Seguro, seus distritos e grande parte do estado da Bahia. Ainda assim, Trancoso ocupa uma posição singular. O distrito concentra alguns dos maiores empreendimentos hoteleiros e condomínios de alto padrão da região, gera arrecadação significativa de impostos, como o ITBI, e possui hoje um dos metros quadrados mais valorizados do Brasil — possivelmente entre os mais caros do mundo.
A construção de um hospital seria de grande importância não apenas para Trancoso, mas também para localidades como Itaporanga, Curuipe e Caraíva. Somadas, essas populações possivelmente superam a de Arraial d’Ajuda e enfrentam ainda mais dificuldades pelo fato de Trancoso estar a mais de 47 quilômetros de distância via balsa e cerca de 77 quilômetros por via terrestre até Porto Seguro.
Promessas não faltaram ao longo dos anos. Em eleições passadas, falou-se na construção de um hospital e na reforma do posto de saúde. Em 2021, o então vereador Reinaldo Farofa concedeu entrevista ao site Gazeta Bahia, comemorando a confirmação recebida do prefeito Jânio Natal de que o município iria construir uma nova unidade hospitalar no distrito naquele ano. Informações preliminares apontavam que o prefeito seria sensível à causa e que, inclusive, teria sido doada uma área às margens da BA-001, em frente ao Sítio Zé e Zilda, para a construção do hospital, além da autorização da ordem de serviço para a reforma do posto de saúde.
Em 2024, a então deputada Cláudia Oliveira destinou, por meio de emenda parlamentar, novos equipamentos de raio-x e ultrassom para a unidade local — um gesto importante, porém insuficiente diante da real necessidade da população.
É justo, portanto, que os recursos arrecadados retornem em benefícios concretos para a comunidade. Saúde, educação e segurança não podem ser promessas eternas nem reféns da politicagem.
Trancoso é conhecido mundialmente por sua beleza, sofisticação e fama. Mas, na prática, está muito aquém do que poderia e deveria ser. Enquanto pessoas ricas e famosas frequentam o distrito — algumas chegando em jatinhos milionários — a população local segue sem um hospital digno.
Para o morador Francisco Santos, é preciso abandonar a ideia de que Trancoso é um lugar perfeito onde tudo funciona bem.
“É preciso tirar a sujeira debaixo do tapete e falar a verdade. Trancoso é um lugar mágico, com algumas das praias mais bonitas do mundo, mas enfrenta problemas estruturais em várias áreas, e a saúde é uma delas. Falta atenção do poder público e também compromisso de empresários que exploram a imagem do lugar, mas ignoram as dificuldades vividas pelos moradores. Espero que não seja preciso que outras pessoas morram para que as promessas se tornem realidade”, afirmou.
Se não houver preocupação com a comunidade que acolhe esses visitantes, que ao menos haja consciência de que uma estrutura de saúde adequada também protege a vida deles e de suas famílias.
Trancoso precisa virar essa página. Valorizar suas virtudes, sim, mas sem esconder uma realidade que clama por atenção, respeito e ações concretas.
O espaço do Jornal Trancoso News permanece aberto para que a Prefeitura e sua assessoria de comunicação prestem esclarecimentos aos questionamentos da população.
