Cara a Cara com Roberto Nogueira
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) voltou a rebater publicamente o pastor Silas Malafaia após novos ataques feitos por ele, motivados pela divulgação de nomes de evangélicos citados na CPMI do INSS. Em entrevista ao jornal O Globo, Damares foi direta ao afirmar que não submete sua atuação parlamentar a líderes religiosos.
“O Malafaia precisa orar um pouco. Eu não submeto minhas ações parlamentares a ele. Além das instituições que divulguei, há ainda menções na CPI à Assembleia de Deus do Amazonas, que já forneceu os dados solicitados e estão sob análise”, declarou a senadora.
A fala reacendeu o embate. Na quarta-feira (14), Silas Malafaia reagiu chamando a senadora de “linguaruda” e afirmando que ela não mereceria sequer ser chamada de evangélica caso não provasse suas declarações. Os ataques, porém, não fizeram Damares recuar.
Mesmo em tratamento de saúde, a parlamentar segue atuando ativamente na CPMI do INSS. Ela citou nomes como André Valadão — ligado ao clã Bolsonaro — e a Igreja Assembleia de Deus Ministério do Renovo. Vale lembrar que o próprio Malafaia também integra a Assembleia de Deus, o que tornou o debate ainda mais sensível dentro do meio evangélico.
Damares também mencionou a convocação de André Machado Valadão, César Bellucci do Nascimento, Péricles Albino Gonçalves, Fabiano Campos Zettel e André Fernandes, além de pedidos de quebra de sigilo envolvendo Valadão. Sobre André Fernandes, há dúvida se se trata do deputado do PL, pastor da Assembleia, ou do pastor do Celeiro São Paulo.
Em nota, a senadora reforçou que foi a responsável pelo requerimento que resultou na criação da CPMI do INSS, instalada em 2025, e que atua como membro titular desde o início. Segundo ela, todas as informações divulgadas são públicas, constam em requerimentos aprovados pela comissão e estão acessíveis à sociedade.
Cara a Cara – A opinião
É impossível ignorar a relevância que Silas Malafaia exerce sobre parte expressiva do meio evangélico e da política nacional. Não há dúvida de que ele teve — e ainda tem — papel importante na mobilização de pessoas e movimentos que ocuparam e ainda ocupam as ruas. No entanto, isso não o coloca acima do bem e do mal.
A fé não pode servir de escudo para agressividade, arrogância ou prepotência. Um líder religioso precisa compreender que autoridade espiritual exige, antes de tudo, humildade, coerência e responsabilidade. Ninguém deve estar imune a prestar contas de seus atos — muito menos pessoas ligadas ao meio evangélico. Pelo contrário, são justamente essas que deveriam ser mais cobradas, por conhecerem a Palavra e por se apresentarem como servos de Deus.
Certa vez, ouvi de um político uma frase que me entristeceu profundamente: “Muitos evangélicos são piores do que pessoas que não professam fé alguma”. Essa afirmação dói porque o que se espera de quem diz crer em Deus é mais ética, mais moral e, acima de tudo, mais compromisso com Deus do que com o mundo. Afinal, a prestação de contas, para quem crê, será feita diante de Deus — e não apenas diante dos homens.
Também é legítimo que a sociedade questione como alguns líderes religiosos acumulam fortunas expressivas enquanto pregam uma mensagem de fé sustentada por dízimos e ofertas de fiéis, muitos deles em situação de vulnerabilidade. Não se trata de condenar igrejas ou pastores que recebem bons salários, mas de exigir transparência, ética e compromisso com aquilo que se prega.
O Evangelho não é sobre poder, fama ou riqueza. É sobre servir, evangelizar e cuidar de quem mais precisa. Quando esses valores se perdem, surgem as críticas, as desconfianças e o sentimento de que a fé está sendo instrumentalizada.
No fim, seja político ou religioso, todos precisam prestar contas — à sociedade, às instituições e, para quem crê, a Deus.
