Cara a Cara | Por Roberto Nogueira
A Bolsa de Valores brasileira ultrapassou os 171 mil pontos e passou a estampar manchetes otimistas. Recordes sucessivos, euforia no mercado e discursos que tentam vender a ideia de que o Brasil voltou a ser um porto seguro para investidores. Mas a pergunta que precisa ser feita é simples — e incômoda: essa alta reflete confiança real ou apenas oportunismo financeiro?
O Brasil hoje possui uma das maiores taxas de juros do mundo, perdendo apenas para Turquia e Rússia. Esse dado, por si só, explica boa parte do apetite estrangeiro. Não se trata de amor ao país, mas de rentabilidade. Capital especulativo não tem ideologia, não tem bandeira — segue o dinheiro.
Parte do mercado também passou a reagir ao cenário político, especialmente ao crescimento do nome de Flávio Bolsonaro como possível candidato à Presidência. Curiosamente, quando seu nome surgiu como pré-candidato, a reação inicial foi negativa. Muitos investidores preferiam Tarcísio de Freitas, visto como opção mais segura para derrotar Lula. Hoje, o discurso mudou. O mesmo mercado que rejeitou, agora precifica como provável uma vitória, mostrando mais uma vez que convicções políticas no mercado duram exatamente o tempo da conveniência.
É verdade que a economia brasileira possui certa blindagem institucional. A autonomia do Banco Central tem sido um dos poucos pilares de previsibilidade em meio ao caos político. Sem ela, os impactos das decisões de Brasília já teriam sido muito mais severos. Ainda assim, essa autonomia não é suficiente para sustentar confiança de longo prazo.
O Brasil continua rico em ativos reais: agronegócio forte, liderança mundial em soja e carne bovina, recursos naturais abundantes. Tudo isso faz do país um território atraente para quem busca lucro. Mas há um problema que nenhum gráfico consegue esconder: a insegurança jurídica.
Investidores reclamam — e com razão — da burocracia sufocante, da corrupção crônica e da instabilidade institucional. Pesquisas mostram que a imagem do Brasil no exterior se deteriorou, e isso não é detalhe. Capital de longo prazo exige previsibilidade, regras claras e confiança nas instituições. E é exatamente isso que hoje falta.
A esperança de muitos é que uma mudança política devolva ao Brasil o selo de país confiável. Mas enquanto isso não acontece, o que se vê é um ambiente contaminado por decisões controversas, interferências constantes e um Judiciário cada vez mais presente no jogo político. A atuação do STF e episódios como o caso do Banco Master ampliam a percepção de risco e jogam sombra sobre qualquer discurso de normalidade.
O mercado pode até comemorar hoje. Mas sem credibilidade, sem transparência e sem segurança jurídica, essa alta corre o risco de ser apenas espuma. E espuma some rápido.
A Bolsa sobe, os números impressionam, mas o país segue andando sobre gelo fino. Porque investimento não se sustenta apenas com juros altos — se sustenta com confiança. E confiança, quando perdida, custa muito mais caro do que qualquer ponto do Ibovespa.
