Jornal Trancoso News | Roberto Nogueira
A primeira semana completa após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato terminou com forte turbulência no mercado financeiro brasileiro.
A Bolsa acumulou uma das maiores quedas semanais dos últimos anos, o dólar disparou, os juros futuros subiram e diversas empresas brasileiras sofreram forte perda de valor.
Nesta sexta-feira, 30 de outubro, o Ibovespa encerrou aos 167.921 pontos, com queda de 0,75% no dia. Na semana, a perda ficou próxima de 18%, a pior desde março de 2020, período marcado pelo início da pandemia. Somente em outubro, o índice recuou 9,88%.
O dólar seguiu caminho contrário. A moeda americana terminou esta sexta-feira em aproximadamente R$ 5,44, acumulando alta superior a 9% na semana, o maior avanço semanal desde a crise financeira internacional de 2008.
Quase R$ 1 trilhão desaparece do valor das empresas
A dimensão da queda pode ser observada no valor de mercado das empresas brasileiras negociadas em Bolsa.
Segundo levantamento da Economatica, as companhias listadas perderam aproximadamente R$ 996,5 bilhões em valor de mercado apenas nesta semana.
É importante explicar que isso não significa que R$ 996 bilhões tenham simplesmente saído dos caixas das empresas. Trata-se da redução do valor atribuído pelo mercado às companhias por meio do preço de suas ações.
Mesmo assim, o tamanho da perda mostra a mudança abrupta de expectativa dos investidores depois das eleições.
Antes do segundo turno, parte significativa do mercado havia montado posições apostando numa mudança de governo e numa política fiscal mais restritiva. A vitória de Lula levou muitos investidores a desmontarem rapidamente essas posições e recalcularem os riscos do país.
Bradesco perde aproximadamente um terço do valor de suas ações
Entre os bancos, o Bradesco tornou-se um dos símbolos dessa mudança de humor.
Na sexta-feira anterior ao segundo turno, 23 de outubro, as ações preferenciais do banco, BBDC4, fecharam em R$ 20,37. Nesta sexta-feira, estavam próximas de R$ 13,93.
Isso representa uma queda próxima de 32% em apenas uma semana. Somente no primeiro pregão depois das eleições, os papéis do banco caíram 21,7%.
O movimento não está relacionado apenas ao resultado eleitoral.
Nesta semana, analistas também passaram a demonstrar maior preocupação com o desempenho futuro do próprio banco.
O JPMorgan rebaixou sua recomendação para o Bradesco e reduziu o preço-alvo das ações para dezembro de 2027 de R$ 26 para R$ 18, corte de quase 31%.
Entre as preocupações estão uma possível desaceleração do crédito, aumento da inadimplência, menor crescimento dos lucros e juros elevados durante mais tempo.
O Itaú BBA e o Citi também ficaram mais cautelosos com o Bradesco depois da eleição.
Não foi apenas o Bradesco
A queda atingiu diversos setores.
No primeiro pregão depois do segundo turno, o Banco do Brasil chegou a cair mais de 29%, enquanto Magazine Luiza despencou mais de 58%. A própria B3, empresa responsável pela Bolsa de Valores, também sofreu forte desvalorização.
Em sentido contrário, empresas exportadoras ou com receitas em dólar passaram a atrair mais atenção dos investidores, entre elas Suzano, Embraer e companhias ligadas a petróleo e mineração.
A explicação é relativamente simples: quando o dólar sobe, empresas que recebem parte importante de suas receitas em moeda estrangeira podem obter uma proteção maior contra a desvalorização do real.
Por que o mercado está preocupado?
O principal problema apontado pelos analistas não é simplesmente Lula ter vencido as eleições.
A preocupação está concentrada principalmente na política fiscal que será adotada durante seu quarto mandato.
Investidores querem saber como o governo pretende controlar o crescimento da dívida pública, financiar os benefícios anunciados durante a campanha, cumprir suas metas fiscais e, ao mesmo tempo, manter investimentos e programas sociais.
Os juros futuros dispararam durante a semana. O contrato com vencimento em janeiro de 2031, por exemplo, saiu de aproximadamente 12,64% antes da eleição para cerca de 15,3%.
Quanto maior o risco percebido pelos investidores, maior tende a ser o juro exigido para financiar o governo e as empresas.
E juros elevados encarecem crédito, financiamento, investimentos e consumo.
O que os analistas esperam para 2027?
Não existe consenso de que o Brasil esteja entrando necessariamente numa crise econômica.
Existem, porém, sinais de desaceleração.
O próprio Banco Central projetava, antes do segundo turno, crescimento de aproximadamente 1,4% para o PIB em 2027, depois de expectativa de 1,8% em 2026. O BC também destacava que a inflação continuava acima da meta e que a economia já apresentava desaceleração em setores como indústria, serviços, consumo e investimentos.
A Instituição Fiscal Independente do Senado apresenta um cenário um pouco melhor para o crescimento, projetando 1,8% em 2027, mas demonstra preocupação maior com as contas públicas.
A IFI estima que a dívida bruta possa passar de 82,5% do PIB em 2026 para 86,4% em 2027, além de projetar déficit primário de aproximadamente R$ 86,1 bilhões no próximo ano.
O Banco Mundial também prevê desaceleração da economia brasileira para 1,7% em 2027 e estima que a dívida pública possa chegar a 90,7% do PIB em 2028, pressionada principalmente pelos elevados custos de financiamento.
Governo apresenta cenário mais otimista
O governo federal, entretanto, trabalha com números mais favoráveis.
A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda projetava crescimento de 2,3% para o PIB em 2027.
O Projeto de Orçamento de 2027 também prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões considerando todas as receitas e despesas, enquanto a meta fiscal oficial trabalha com resultado ajustado superior.
Além disso, o Governo Central apresentou superávit de R$ 4,839 bilhões em setembro, acima das expectativas do mercado. No acumulado de janeiro a setembro, entretanto, ainda havia déficit primário de R$ 90,2 bilhões.
Portanto, existem dois cenários sendo apresentados.
De um lado, o governo afirma que conseguirá avançar na consolidação fiscal e manter crescimento econômico.
Do outro, instituições independentes e parte do mercado demonstram preocupação com o crescimento da dívida, juros elevados e menor expansão da atividade.
O futuro do Lula 4 dependerá das próximas decisões
Os próximos meses serão fundamentais para determinar se a queda atual representa apenas uma forte correção de mercado depois das eleições ou o início de um período mais prolongado de desconfiança.
Analistas do Bradesco BBI avaliam que, apesar de muitas ações brasileiras terem ficado mais baratas, juros elevados, incerteza fiscal e possíveis cortes nas previsões de lucro podem continuar pressionando a Bolsa. Historicamente, recuperações depois de choques dessa intensidade podem levar meses e, em alguns casos, anos.
Outros analistas ressaltam que empresas brasileiras continuam apresentando bons fundamentos e que uma sinalização fiscal consistente poderia ajudar a reduzir juros futuros, fortalecer o real e recuperar a confiança dos investidores.
O mercado, portanto, parece estar enviando uma mensagem bastante clara ao quarto governo Lula:
não basta anunciar políticas sociais e investimentos. Será necessário mostrar também como serão financiados e como a dívida pública será controlada.
A queda da Bolsa não significa automaticamente que o Brasil irá entrar em crise.
A alta do dólar também não significa que o país esteja quebrado.
Mas movimentos dessa magnitude não podem simplesmente ser ignorados.
Quase R$ 1 trilhão em valor de mercado perdido numa semana, dólar acima de R$ 5,40, juros futuros próximos de 15% e uma Bolsa que perdeu aproximadamente 18% em cinco pregões mostram que existe uma forte desconfiança sendo precificada.
Agora, a responsabilidade está com o governo.
Se Lula conseguir apresentar uma equipe econômica capaz de convencer investidores de que haverá controle dos gastos, previsibilidade fiscal e responsabilidade com a dívida, parte dessa turbulência poderá diminuir.
Se as dúvidas permanecerem, o Brasil poderá continuar convivendo com dólar mais alto, crédito mais caro, juros elevados e crescimento econômico menor.
É esse o grande desafio do Lula 4: conciliar políticas sociais, crescimento econômico e responsabilidade fiscal sem permitir que a conta pública saia do controle.
Bolsa despenca, dólar dispara e empresas perdem quase R$ 1 trilhão: mercado aumenta pressão sobre Lula 4
Jornal Trancoso News | Roberto Nogueira
A primeira semana completa após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato terminou com forte turbulência no mercado financeiro brasileiro.
A Bolsa acumulou uma das maiores quedas semanais dos últimos anos, o dólar disparou, os juros futuros subiram e diversas empresas brasileiras sofreram forte perda de valor.
Nesta sexta-feira, 30 de outubro, o Ibovespa encerrou aos 167.921 pontos, com queda de 0,75% no dia. Na semana, a perda ficou próxima de 18%, a pior desde março de 2020, período marcado pelo início da pandemia. Somente em outubro, o índice recuou 9,88%.
O dólar seguiu caminho contrário. A moeda americana terminou esta sexta-feira em aproximadamente R$ 5,44, acumulando alta superior a 9% na semana, o maior avanço semanal desde a crise financeira internacional de 2008.
Quase R$ 1 trilhão desaparece do valor das empresas
A dimensão da queda pode ser observada no valor de mercado das empresas brasileiras negociadas em Bolsa.
Segundo levantamento da Economatica, as companhias listadas perderam aproximadamente R$ 996,5 bilhões em valor de mercado apenas nesta semana.
É importante explicar que isso não significa que R$ 996 bilhões tenham simplesmente saído dos caixas das empresas. Trata-se da redução do valor atribuído pelo mercado às companhias por meio do preço de suas ações.
Mesmo assim, o tamanho da perda mostra a mudança abrupta de expectativa dos investidores depois das eleições.
Antes do segundo turno, parte significativa do mercado havia montado posições apostando numa mudança de governo e numa política fiscal mais restritiva. A vitória de Lula levou muitos investidores a desmontarem rapidamente essas posições e recalcularem os riscos do país.
Bradesco perde aproximadamente um terço do valor de suas ações
Entre os bancos, o Bradesco tornou-se um dos símbolos dessa mudança de humor.
Na sexta-feira anterior ao segundo turno, 23 de outubro, as ações preferenciais do banco, BBDC4, fecharam em R$ 20,37. Nesta sexta-feira, estavam próximas de R$ 13,93.
Isso representa uma queda próxima de 32% em apenas uma semana. Somente no primeiro pregão depois das eleições, os papéis do banco caíram 21,7%.
O movimento não está relacionado apenas ao resultado eleitoral.
Nesta semana, analistas também passaram a demonstrar maior preocupação com o desempenho futuro do próprio banco.
O JPMorgan rebaixou sua recomendação para o Bradesco e reduziu o preço-alvo das ações para dezembro de 2027 de R$ 26 para R$ 18, corte de quase 31%.
Entre as preocupações estão uma possível desaceleração do crédito, aumento da inadimplência, menor crescimento dos lucros e juros elevados durante mais tempo.
O Itaú BBA e o Citi também ficaram mais cautelosos com o Bradesco depois da eleição.
Não foi apenas o Bradesco
A queda atingiu diversos setores.
No primeiro pregão depois do segundo turno, o Banco do Brasil chegou a cair mais de 29%, enquanto Magazine Luiza despencou mais de 58%. A própria B3, empresa responsável pela Bolsa de Valores, também sofreu forte desvalorização.
Em sentido contrário, empresas exportadoras ou com receitas em dólar passaram a atrair mais atenção dos investidores, entre elas Suzano, Embraer e companhias ligadas a petróleo e mineração.
A explicação é relativamente simples: quando o dólar sobe, empresas que recebem parte importante de suas receitas em moeda estrangeira podem obter uma proteção maior contra a desvalorização do real.
Por que o mercado está preocupado?
O principal problema apontado pelos analistas não é simplesmente Lula ter vencido as eleições.
A preocupação está concentrada principalmente na política fiscal que será adotada durante seu quarto mandato.
Investidores querem saber como o governo pretende controlar o crescimento da dívida pública, financiar os benefícios anunciados durante a campanha, cumprir suas metas fiscais e, ao mesmo tempo, manter investimentos e programas sociais.
Os juros futuros dispararam durante a semana. O contrato com vencimento em janeiro de 2031, por exemplo, saiu de aproximadamente 12,64% antes da eleição para cerca de 15,3%.
Quanto maior o risco percebido pelos investidores, maior tende a ser o juro exigido para financiar o governo e as empresas.
E juros elevados encarecem crédito, financiamento, investimentos e consumo.
O que os analistas esperam para 2027?
Não existe consenso de que o Brasil esteja entrando necessariamente numa crise econômica.
Existem, porém, sinais de desaceleração.
O próprio Banco Central projetava, antes do segundo turno, crescimento de aproximadamente 1,4% para o PIB em 2027, depois de expectativa de 1,8% em 2026. O BC também destacava que a inflação continuava acima da meta e que a economia já apresentava desaceleração em setores como indústria, serviços, consumo e investimentos.
A Instituição Fiscal Independente do Senado apresenta um cenário um pouco melhor para o crescimento, projetando 1,8% em 2027, mas demonstra preocupação maior com as contas públicas.
A IFI estima que a dívida bruta possa passar de 82,5% do PIB em 2026 para 86,4% em 2027, além de projetar déficit primário de aproximadamente R$ 86,1 bilhões no próximo ano.
O Banco Mundial também prevê desaceleração da economia brasileira para 1,7% em 2027 e estima que a dívida pública possa chegar a 90,7% do PIB em 2028, pressionada principalmente pelos elevados custos de financiamento.
Governo apresenta cenário mais otimista
O governo federal, entretanto, trabalha com números mais favoráveis.
A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda projetava crescimento de 2,3% para o PIB em 2027.
O Projeto de Orçamento de 2027 também prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões considerando todas as receitas e despesas, enquanto a meta fiscal oficial trabalha com resultado ajustado superior.
Além disso, o Governo Central apresentou superávit de R$ 4,839 bilhões em setembro, acima das expectativas do mercado. No acumulado de janeiro a setembro, entretanto, ainda havia déficit primário de R$ 90,2 bilhões.
Portanto, existem dois cenários sendo apresentados.
De um lado, o governo afirma que conseguirá avançar na consolidação fiscal e manter crescimento econômico.
Do outro, instituições independentes e parte do mercado demonstram preocupação com o crescimento da dívida, juros elevados e menor expansão da atividade.
O futuro do Lula 4 dependerá das próximas decisões
Os próximos meses serão fundamentais para determinar se a queda atual representa apenas uma forte correção de mercado depois das eleições ou o início de um período mais prolongado de desconfiança.
Analistas do Bradesco BBI avaliam que, apesar de muitas ações brasileiras terem ficado mais baratas, juros elevados, incerteza fiscal e possíveis cortes nas previsões de lucro podem continuar pressionando a Bolsa. Historicamente, recuperações depois de choques dessa intensidade podem levar meses e, em alguns casos, anos.
Outros analistas ressaltam que empresas brasileiras continuam apresentando bons fundamentos e que uma sinalização fiscal consistente poderia ajudar a reduzir juros futuros, fortalecer o real e recuperar a confiança dos investidores.
O mercado, portanto, parece estar enviando uma mensagem bastante clara ao quarto governo Lula:
não basta anunciar políticas sociais e investimentos. Será necessário mostrar também como serão financiados e como a dívida pública será controlada.
A queda da Bolsa não significa automaticamente que o Brasil irá entrar em crise.
A alta do dólar também não significa que o país esteja quebrado.
Mas movimentos dessa magnitude não podem simplesmente ser ignorados.
Quase R$ 1 trilhão em valor de mercado perdido numa semana, dólar acima de R$ 5,40, juros futuros próximos de 15% e uma Bolsa que perdeu aproximadamente 18% em cinco pregões mostram que existe uma forte desconfiança sendo precificada.
Agora, a responsabilidade está com o governo.
Se Lula conseguir apresentar uma equipe econômica capaz de convencer investidores de que haverá controle dos gastos, previsibilidade fiscal e responsabilidade com a dívida, parte dessa turbulência poderá diminuir.
Se as dúvidas permanecerem, o Brasil poderá continuar convivendo com dólar mais alto, crédito mais caro, juros elevados e crescimento econômico menor.
É esse o grande desafio do Lula 4: conciliar políticas sociais, crescimento econômico e responsabilidade fiscal sem permitir que a conta pública saia do controle.
