Coluna Cara a Cara / Roberto Nogueira
Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum vermos grandes eventos e shows gratuitos promovidos por prefeituras em diversas cidades do Brasil. Embora essas iniciativas tenham importância cultural, social e até financeira, muitos cidadãos passaram a questionar se, em alguns casos, as prioridades da população estão realmente sendo respeitadas.
O recente show da cantora Shakira, realizado gratuitamente na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, reacendeu esse debate em todo o país. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o evento teria recebido investimentos públicos entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões, além de toda a estrutura de segurança, organização e logística necessária para um espetáculo dessa magnitude.
Enquanto milhões são destinados para festas e entretenimento, parte da população continua enfrentando sérios problemas nas áreas da saúde, educação, segurança pública e infraestrutura. Hospitais superlotados, falta de medicamentos, escolas necessitando de melhorias, ruas abandonadas e crescimento da violência ainda fazem parte da realidade de muitos municípios brasileiros.
É importante deixar claro que não se trata de ser contra a cultura, o lazer ou os eventos populares. A cultura faz parte da identidade do povo brasileiro, movimenta a economia, gera empregos temporários e proporciona momentos de alegria para milhares de pessoas. O grande debate está justamente na possível inversão de prioridades quando áreas essenciais continuam sofrendo abandono ou deficiência.
Em algumas cidades, principalmente em períodos próximos às eleições, analistas políticos observam que determinados gestores públicos acabam utilizando grandes eventos como estratégia para fortalecer sua popularidade perante a população. Para alguns especialistas, ainda que isso nem sempre seja considerado ilegal, pode ser visto como algo moralmente questionável quando serviços básicos continuam apresentando graves dificuldades.
Outra preocupação levantada por parte da sociedade está relacionada aos altos valores pagos em cachês de artistas e aos custos gerais de organização desses eventos. Em alguns casos, surgem questionamentos sobre possíveis superfaturamentos, principalmente quando os valores divulgados são considerados extremamente elevados para a realidade financeira de determinadas cidades.
Em municípios vizinhos, como Eunápolis, esse tipo de evento também costuma acontecer durante os festejos juninos do tradicional Pedrão, reunindo multidões e atraindo visitantes de várias regiões. Shows com artistas famosos e cachês milionários acabam movimentando fortemente a economia local, fortalecendo hotéis, restaurantes, bares, ambulantes e o comércio em geral.
Por outro lado, a população também questiona até que ponto esses investimentos estão sendo realizados com equilíbrio e responsabilidade diante das necessidades básicas ainda enfrentadas por muitos moradores.
Naturalmente, eventos dessa dimensão possuem importância cultural e impacto econômico positivo. O próprio show de Shakira no Rio teve estimativa de movimentar centenas de milhões de reais na economia da cidade, segundo dados divulgados pela Prefeitura.
Ainda assim, muitos defendem que é fundamental existir fiscalização rigorosa por parte do Ministério Público, dos órgãos de controle, das câmaras de vereadores, dos deputados estaduais e federais e também da própria sociedade civil organizada. Afinal, quando recursos públicos estão envolvidos, transparência e responsabilidade devem ser prioridades absolutas.
O verdadeiro desenvolvimento de uma cidade não pode ser medido apenas pela grandiosidade de suas festas, mas principalmente pela qualidade de vida, dignidade, saúde, educação, segurança e infraestrutura oferecidas à população.
No final das contas, cabe à sociedade refletir sobre quais devem ser as verdadeiras prioridades de uma administração pública e até que ponto grandes eventos representam desenvolvimento real ou apenas uma distração momentânea diante de problemas que continuam afetando milhares de pessoas diariamente.
