O episódio ocorrido em 30 de dezembro, na praia de Porto de Galinhas (PE), envolvendo agressões a turistas após divergência sobre a cobrança de cadeiras e guarda-sóis, extrapola a condição de fato isolado. Trata-se de um sinal de alerta institucional para destinos turísticos em todo o país, especialmente aqueles cuja economia depende diretamente do turismo.
A violência não pode ser normalizada sob nenhuma circunstância. Divergências comerciais, mesmo quando intensas, jamais justificam agressões físicas. O ocorrido evidencia um problema estrutural: a ausência de normatização clara, a fiscalização insuficiente e a falta de mecanismos eficazes de mediação por parte do poder público em áreas de grande fluxo turístico criam um ambiente propício a conflitos, que podem evoluir para situações de extrema gravidade.
De acordo com relatos amplamente divulgados, houve divergência entre o valor previamente informado e o valor cobrado no momento do pagamento. Independentemente das versões apresentadas, o ponto central é inequívoco: houve agressão a turistas, fato que produz efeitos negativos não apenas às vítimas diretas, mas também à imagem do destino e, por consequência, ao turismo brasileiro como um todo.
Uma realidade que se repete em outros destinos
O episódio de Porto de Galinhas não representa uma exceção. Na Costa do Descobrimento, especialmente em Porto Seguro e Trancoso, são frequentes as manifestações de turistas e moradores quanto a cobranças abusivas, falta de transparência na formação de preços, estacionamentos informais em vias públicas, atuação irregular de supostos “guardadores de veículos” e exigência de consumo mínimo em cabanas de praia — práticas que, em diversas situações, confrontam diretamente o Código de Defesa do Consumidor.
Durante os períodos de alta temporada, tais distorções tendem a se intensificar. Preços variam conforme o perfil do consumidor, valores não são informados de forma clara e prévia, e o constrangimento passa a integrar a experiência do visitante. Embora ainda não tenham sido registrados episódios de violência física nesses locais, o risco é concreto. A tolerância prolongada a essas práticas cria um cenário de instabilidade e desgaste.
Observa-se, ainda, uma percepção recorrente de fragilidade na atuação institucional, especialmente no âmbito das políticas municipais de turismo. Em muitos casos, há forte investimento na promoção externa do destino, sem a correspondente atenção à organização, fiscalização e acolhimento do turista no território. Secretarias de Turismo com atuação limitada, inclusive durante a alta estação, não conseguem responder à complexidade das demandas do setor.
Causa estranheza, inclusive, que em situações de grande repercussão nacional relacionadas ao turismo, manifestações públicas partam de pastas diversas, enquanto a autoridade máxima do turismo local permanece em silêncio, enfraquecendo a comunicação institucional e a confiança do visitante.
Serviços públicos, transporte e mobilidade
A esse cenário somam-se outras questões igualmente sensíveis, como reajustes em tarifas de serviços públicos concedidos, a exemplo da balsa, muitas vezes percebidos pela população sem comunicação clara e transparente. Também são frequentes as reclamações relativas a valores cobrados por ônibus, vans, táxis e mototáxis, afetando não apenas turistas, mas também moradores locais.
No campo da mobilidade urbana, há críticas recorrentes quanto a autuações de trânsito realizadas sem critérios técnicos evidentes, agravadas pela deficiência na sinalização viária, o que gera insegurança, insatisfação e desgaste da imagem institucional do destino.
O papel do poder público
A omissão institucional também gera responsabilidade. Cabe ao poder público municipal organizar o uso do espaço público, estabelecer regras claras, fiscalizar práticas abusivas e garantir equilíbrio entre a atividade econômica e a proteção do consumidor. A ausência de atuação efetiva contribui diretamente para a repetição de conflitos e para o enfraquecimento da confiança no destino.
Da mesma forma, espera-se atuação mais presente dos órgãos de defesa do consumidor e do Ministério Público, especialmente diante de indícios reiterados de práticas abusivas e descumprimento sistemático da legislação.
Turismo exige governança e respeito
O turismo não se sustenta apenas em atrativos naturais. Ele depende de governança, segurança jurídica, transparência, organização e previsibilidade. Episódios como o ocorrido em Porto de Galinhas impactam negativamente economias locais inteiras e penalizam, sobretudo, os empreendedores que atuam de forma regular e responsável.
A adoção de medidas preventivas é urgente. Ignorar sinais claros de desorganização hoje pode resultar em consequências mais graves amanhã.
Este editorial não tem como objetivo apontar culpados individualmente, mas estimular reflexão institucional, responsabilidade administrativa e ação coordenada. O turismo é um ativo coletivo, estratégico para o desenvolvimento econômico e social — e sua preservação exige compromisso permanente do poder público, do setor privado e da sociedade.
Jornal Trancoso Notícias
Editorial
Coluna Cara a Cara — Roberto Nogueira
